Lasar Segall
Uma doce criatura, 1918
Lasar Segall
Bubu, 1921
Lasar Segall
Mangue, 1944
No conjunto da obra de Lasar Segall, é notável sua extensa produção gráfica, múltipla em técnicas e temáticas. Seus trabalhos iniciais no campo da reprodutibilidade da imagem eram pautados pelo registro de personagens e cenas do cotidiano de Vilna, sua cidade natal. A partir de sua incursão no expressionismo, movimento que se utilizou amplamente da gravura, sua obra ganha novas possibilidades de locução formal.

Nessa trajetória, quatro álbuns, entre eles um realizado no Brasil, evidenciam momentos específicos de sua atividade como gravador. Três encontram-se aqui expostos: Uma doce criatura, com cinco litografias caracterizadas por angulações e economia dos traços na construção dos personagens, e foi inspirado no conto Uma criatura dócil de Fiódor Dostoiévski. Bubu, com oito litografias, foi baseado no romance Bubu de Montparnasse, de Charles-Louis Philippe, e cujas gravuras transmitem as angústias e melancolias existenciais da época e de um artista nascido no final do século XIX, sob a tutela da cultura russa e em busca de novos caminhos para a sua produção. Mangue, álbum produzido após a incursão de Segall pelo universo da prostituição carioca na região que dá nome à obra, retoma uma temática já explorada por ele no período alemão. Lançado em 1944 por iniciativa de Murilo Miranda, este álbum é considerado como um dos mais importantes livros de artistas do Brasil, e está composto de três xilogravuras, uma litografia e 42 zincografias de desenhos esparsos realizados ao longo de duas décadas – anotações e estudos que serviriam de ponto de partida para pinturas. Mangue conta com apresentações de Jorge de Lima, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

Esses álbuns revelam a maestria técnica e formal de Lasar Segall no campo da gravura, além de suas preocupações sociais, já que ao longo de toda carreira tratou de temas como violência, submissão e opressão, e soube olhar com sensibilidade e empatia para o mundo nos dois lados do Atlântico. Como escreve Manuel Bandeira no texto de apresentação de Mangue, Segall debruçou-se “sobre as almas mais solitárias e amarguradas daquele mundo de perdição, como já se debruçara sobre as almas mais solitárias e amarguradas do mundo judeu, sobre as vítimas dos pogroms, sobre o convés da terceira classe dos transatlânticos de luxo”.